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/ pp 70-80 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 – NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
Desse modo, “Cuidado” pode ser compreendido enquanto “fenômeno para a nossa consciência, [que] se mostra em
nossa experiência e molda a nossa prática” (Boff, 1999, p. 89). Ora, é no campo da ação que o “Cuidado” tem sua
maior expressão, porque orienta nossa forma de agir, direciona os meios para que esse agir seja uma prática de
conservação, de reparação da vida. Indicando caminhos, criando técnicas, reciclando práticas, educando, direcionando
hábitos, enfim, criando uma atmosfera de regras e hábitos, e tudo que se fizer necessário, para a realização do seu
objetivo: criar “terra fértil”, manter e preservar sua conservação, tornar a Terra um ambiente fértil, húmus, habitar que
cura.
Se essa interpretação arquetípica de cuidado tiver força e sentido, podemos dizer que “Ser-devir humano e Cuidado”
não podem ser compreendidos separadamente. Só é possível refletir os movimentos cotidianos do humano a partir das
experiências do cuidado e de “como [ele] é vivido e se estrutura em nós mesmos” (Boff, 1999, p. 89). Ainda seguindo
as argumentações do citado autor, não se pode dizer que “temos cuidado”, mas, que “somos cuidado”, o que confere
ao cuidado uma dimensão ontológica, uma vez que ele passa a ser parte fundante da “constituição do ser humano”,
sem ele não se poderia nem mesmo falar de “humano”.
Boff (1999), na mesma obra, analisa a filologia da palavra cuidar (
Sorge
) e alude que a mesma tem o sentido de
cura
,
significado que Heidegger (1988), grande expoente da filosofia fenomenológica e existencial, também adotou. No
dicionário de latim de Ernesto Faria (1962),
cura
é um substantivo feminino que pode significar cuidado, mas também
significa: direção, administração, encargo, incumbência. Sendo assim, em sentidos diversos, o cuidado pode ser
entendido como objeto ou causa de inquietação. Por exemplo: inquietação amorosa e, também, pode ser empregado
com o sentido de amor, ou na acepção do objeto amado. Ainda na língua latina, cuidado pode ser sinônimo de
cogitare-
cogitatus,
usado no mesmo sentido de
cura
, como sinônimo de “cogitar, pensar, colocar atenção, mostrar interesse,
revelar uma atitude de desvelo e de preocupação” (Boff, 1999, p. 91). Essas duas acepções de cuidado – cura e causa
de inquietação – podem nos conduzir a pensar acerca das relações que mantemos com os outros e com as coisas.
Cuidar implica relacionar-se, curar alguém, direcionar algo ou alguém, se encarregar de algo ou de alguém, se inquietar
com algo ou com alguém, colocar a atenção em algo ou alguém, e assim por diante.
Por isso, Heidegger (1988), no sexto capítulo de
Ser e Tempo
, intitulado A cura como ser da presença, analisa o
Dasein
(
o ser aí
) como sendo “originariamente a abertura em que se dá o ‘estar em jogo’ do ser” (Sá, 2000, p. 260). Para o
autor, é através da presença que se dá a possibilidade de abertura para que o ser humano se torne humano diante dos
outros, sempre no mundo. Portanto, para Heidegger (1988), o ser humano só se torna humano através do cuidado, uma
vez que o Ser já precede a si mesmo por só poder ser ao estar lançado no mundo. Ele se projeta no mundo para poder
Ser e se relaciona com os outros como condição de possibilidade da sua própria existência
4
. Heidegger (1988) cita a
“concepção do cuidado quando fala da interpretação existencial da pre-sença como cura (
sorge
), a partir da própria
interpretação pré-ontológica da pre-sença” (Oliveira; Carraro, 2011, p. 379). Heidegger (1988, p. 257) ainda afirma:
“em sua essência o ser no mundo é cura”, e acrescenta: “cura caracteriza não somente a existencialidade, separada
da facticidade e de-cadência, como também abrange a unidade dessas determinações ontológicas” (
Idem, ibidem
). O
autor frisa que a relação ontológica com o cuidado não se dá na relação exclusiva do “eu consigo mesmo”, uma vez
que Ser já pressupõe estar lançado na existência. “A nossa inconsistência ontológica nos faz necessitados de um outro”
(Mortari 2018, p.16). Assim, a formação pelo cuidado ou o cuidado com a formação passam necessariamente pela
questão da vitalidade e afecções criadas nos/pelos encontros.
Na medida em que o cuidado é parte fundante da relação com a existência de si e do outro, é na cotidianidade, no dia
a dia, que ele deve ser praticado, ou seja, o cuidado se exerce nos movimentos da vida cotidiana e das redes educativas
(Alves, 2010a). De certa forma, há um modo de cuidar que envolve planejamento, participação, acolhimento, direitos
etc., o que mais uma vez o entrelaça com a dimensão da ética. É preciso estarmos atentos/as a isso: é através do
encontro com outro ser que se será cuidado, e, na medida em que se cuida do outro, também se exerce uma espécie
de cuidado consigo mesmo, já que o cuidado pressupõe abertura e relação, como vimos através de Heidegger (1988)
e Alves (2010a; 2010b). Ou seja, é através do cuidado que os outros dispensam a nós que vamos aprendendo, aos
poucos, a desenvolver o autocuidado. Essa questão tem várias implicações. Podemos conjecturar um caso hipotético
4
Aqui é importante notar que a existência própria é marcada pela dependência dos outros (interdependência que já notamos nos remete ao
cuidado). Isso significa dizer que nós só podemos ser porque os outros são. Isso também reforça a importância do coletivo em todo processo de
formação/transformação. Nilda Alves (2010b) assinala esse processo ao cunhar o termo redes educativas. Para a autora, “as pesquisas
nos/dos/com os cotidianos que desenvolvo têm permitido indicar que formamos redes educativas múltiplas e que é nelas que nos formamos”
(Alves, 2010b, p. 3).